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O caso de agressão no BBB e a negligência da Globo

Por Dandara Oliveira

O caso de agressão que ocorreu na décima sétima edição do programa Big Brother Brasil foi tema amplamente explorado tanto pela mídia quanto pelo grande público. Contextualizando a temática desse texto, a participante Emilly Araújo, de 20 anos, teve um relacionamento com Marcos Harter, de 37 anos, relacionamento esse que teve seu início logo nas primeiras semanas do confinamento e seu fim com a expulsão do participante na última semana de jogo.

Desde os primeiros dias de confinamento, o participante já apresentava um comportamento abusivo e desrespeitoso com a participante. Logo na primeira semana do programa, Marcos tentou beijá-la a força, mesmo a participante demonstrando que não tinha nenhum interesse em manter um relacionamento amoroso, inclusive, dizendo várias vezes que seu interesse era apenas em manter uma amizade com o participante.

A partir do momento em que Marcos e Emilly decidiram iniciar um relacionamento, Marcos utilizava o discurso de que todas as ações realizadas por ele eram para proteger Emilly, que segundo ele, não tinha experiência de vida necessária para enfrentar determinadas situações dentro da casa. Ao longo do programa, o relacionamento dos dois foi marcado por diversas brigas e com muitas idas e vindas, e toda discussão que ocorria, o participante alegava que a jovem não tinha maturidade o suficiente. Na briga que gerou a expulsão do participante, Emilly é encurralada na parede por Marcos, que por sua vez, também põe o dedo no rosto da jovem.


Marcos foi enquadrado na Lei Maria da Penha por violência doméstica. No artigo 10 do terceiro capítulo desta lei considera que no caso de prática de violência doméstica e familiar contra uma mulher, a autoridade policial está autorizada a se mobilizar independentemente de ser solicitada ou não: "Na hipótese da iminência ou da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, a autoridade policial que tomar conhecimento da ocorrência adotará, de imediato, as providências legais cabíveis".

No caso de Marcos, a ação policial foi baseada no flagrante, que foi fundamentado nas cenas do último fim de semana dele na casa, em que houve a agressão que gerou sua expulsão. Os abusos físico e psicológico são facilmente identificados nas cenas que foram ao ar na edição seguinte à agressão. A emissora não nos poupou das imagens de violência e só tomou alguma providência quando percebeu os protestos nas redes sociais. Quando Emilly falou à Marcos "você está me machucando" foi explícita a ideia de que ela estaria sofrendo lesão corporal.

Nos casos envolvendo violência contra a mulher, a produção do programa só apresenta algum tipo de posicionamento quando há algum tipo de pressão externa. No caso ocorrido na edição de 2012, Daniel Echaniz foi acusado de abusar sexualmente da participante Monique Amin. Na ocasião, a participante estava visivelmente bêbada, e movimentos de baixo do edredom indicavam que Echaniz estaria transando com ela sem seu consentimento. O posicionamento da produção do programa nesse caso e em outros envolvendo violência contra a mulher foi o de demonstrar a ideia de que estavam cientes do ocorrido e de acatar instâncias superiores do programa e, caso necessário, acatar a justiça. Mas nesses casos, a demanda por seguir a justiça partiu sempre do público, nunca foi uma decisão espontânea do programa acatar a justiça nesses casos. Mas no caso ocorrido na última edição do programa, a emissora deixou nas mãos de Emilly a decisão de denunciar ou não o homem em que ela tinha um relacionamento dentro da casa.

Já com o fim do programa, Marcos disponibiliza em uma rede social, uma carta aberta destinada à Emilly, na qual, ao longo de um extenso texto, tenta culpabilizá- la por sua expulsão do programa. Marcos afirma que Emilly foi até o confessionário e o acusou, injustamente, segundo ele, pois teria dito que ele teria a agredido, motivando sua expulsão.

Nas redes sociais há muitos fã-clubes de Marcos,que ainda torcem para uma reconciliação do casal. Estes fã-clubes chegaram ao ponto de criar um perfil fake em uma rede social destinada à um suposto filho de Emilly e Marcos.



De acordo com Pierre Bourdieu, a violência expressada na agressão física é apenas uma manifestação, em maior escala, da violência simbólica. Em relação a isso, o autor afirma: “Se a unidade doméstica é o lugar onde a dominação masculina se manifesta de maneira mais indiscutível (e não só através do recurso à violência física), o princípio de perpetuação das relações de forças materiais e simbólicas que aí se exercem se coloca essencialmente fora dessa unidade, em instâncias, como a igreja, a escola ou o Estado e em suas ações próprias, declaradas ou escondidas, oficiais ou oficiosas.”(Bourdieu, 2003:138) 

Por fim, o caso de constantes abusos na última edição do programa Big Brother Brasil, pudemos observar uma maior mobilização externa, principalmente nas redes sociais e em blogs feministas que originaram a expulsão de Marcos Harter. Quando o assunto é Big Brother, é necessária uma repercussão nas redes sociais para que algo seja feito. Em outro reality show brasileiro, A Fazenda, uma participante foi acusada de agredir fisicamente um outro participante, nesse caso, a produção do programa não se eximiu de responsabilidade, assim, agindo rapidamente e a expulsou do programa; sem apelo midiático. Querendo ou não, Emilly e Marcos foram os protagonistas da última edição do programa, portanto, cabe o questionamento se a emissora demorou a reagir à uma violência explícita devido a manutenção da audiência. De todo modo, o caso teve um papel importante para mostrar que um caso de violência doméstica não depende de denúncia da vítima para ser abordado pela polícia.

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