Por Laura Alves
A nova campanha publicitária lançada pela cerveja Skol em março de 2017 não é uma simples propaganda, e nem deve assim ser percebida. Ela fala de seu tempo, de um tempo que foi e do que pode vir. No entanto, e talvez por isso, não deve ser observada de forma superficial.
Com o slogan “Redondo é sair do seu passado”, a marca convidou seis ilustradoras para recriar antigos anúncios, que continham imagens e discursos de extrema estigmatização das mulheres. A campanha Skol Repost afirma promover a igualdade de gênero e pretende com isso se redimir por anos de desserviços prestados às mulheres brasileiras.
https://www.youtube.com/watch?v=g_8fnMtbdso
Sabemos que estereótipos grosseiros de visão puramente sexista presentes nas propagandas de cerveja náo sáo exclusividade da Skol. Também não precisamos ir longe para concluir que há tempos a mulher é exibida em anúncios de cerveja de maneira, digamos, nada edificante. Agora parece que elas estão, finalmente, sendo vistas como consumidoras de cerveja, e não apenas como distração para os ~homens bebintes~.
Sim, a Skol diferentona demorou mas entendeu. Entendeu que o público-alvo é maior e que não dá pra continuar com esse discurso em pleno 2017. É feio. Até no capitalismo é feio.
A publicidade se espelha na sociedade em que ela está inserida. Ela não pretende criar hábitos, nem mudar tendências ou costumes. Ao contrário, ela os retrata e reproduz.
Se estou dizendo, com isso, que o Brasil deixou de ser machista? Obviamente nao. Ainda no âmbito midiático, José Mayer e Big Brother 2017 estampam em nossas caras o machismo enraizado em nossa sociedade. Mas esses casos mostram, sobretudo, a força do movimento feminista, que não se calando afastou o galã da Globo da novela e expulsou o machão do BBB.
A estudiosa Suely Almeida (1998) conta que o discurso feminista vem, já há décadas, apresentando resistências para absorver a extensão de suas bandeiras de lutas. E tal movimento vem, nas últimas décadas, se fortalecendo de uma forma que não pode mais ser ignorada. Joaquín Herrera-Flores vai dizer que a conquista dos direitos humanos sao, sempre, resultados de lutas sociais. Nascem sempre em circunstâncias específicas, caracterizadas por lutas de movimentos sociais. O Movimento conquistou essa representação. Não é ponto para a Skol. São 10 pontos pro Movimento Feminista.
Da Skol lembramos bem… Lá no carnaval de 2015, nem faz tanto, espalhou pelas cidades cartazes no mínimo criminosos, com os dizeres “deixei o não em casa” e “topo antes de saber a pergunta”. A campanha foi, na época, amplamente criticada nas redes sociais e a Skol acusada de incentivar o assédio sexual. Agora a marca faz de tudo para apagar essa imagem. A Skol não quer mais ser machista. Não quer ser acusada de incentivar o assédio sexual. Nåo quer bater de frente com o movimento feminista.
A Skol foi esperta o bastante para entender que pode ainda lucrar com isso. O capitalismo é mesmo formidável, #SQN. A intenção da marca é que os pôsteres feitos pelas artistas deem lugar aos antigos colados em botecos e bares Brasil afora. Isso quer dizer que quem ver por aí algum cartaz antigo pode entrar em contato com a marca e, assim, o antigo é substituído pelo novo cartaz.
Este texto não pretende desmerecer o ocorrido, sabemos bem da importância da representação, mas direcionar o aplauso. Um discurso hegemônico não se altera facilmente. O Movimento Feminista é foda. Será que agora poderemos, enfim, tomar nossas cervejas em paz? Sabemos que não. É preciso estarmos atentas e fortes. Sigamos na luta.
Excelente texto! É fundamental dar conta das relações entre as mídias e os movimentos sociais e se posicionar a respeito.
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