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“13 Reasons Why” – Uma série sobre bullying, depressão e suicídio?

Por Aurea Thatyanne Ferreira

[Contém spoilers]

No final do mês de março, a Netflix lançou a série “13 Reasons Why” (ou “Os 13 Porquês”) produzida pela própria empresa e baseada no livro homônimo do autor norte-americano Jay Asher. Na trama, a personagem principal Hannah Baker comete suicídio e conta sua história (e os caminhos que a levaram ao fim trágico) por meio de 13 fitas cassete, onde são apontados os ‘culpados’ pelo seu drama pessoal.

Assim que lançada, a série teve grande audiência e repercussão, gerando em seguida muitos, muitos (e muitos!) debates. Fossem especialistas em seus sites e blogs, ou meros espectadores em suas páginas pessoais no Facebook, a internet pipocou com textos tecendo críticas - e também elogios. As argumentações, em sua maioria, giravam em torno dos temas do ‘bullying’, ‘depressão’ e ‘suicídio’ na adolescência, descritos inúmeras vezes como os “temas centrais” da produção.

Alguns dados fundamentam quem assim descreve a série: depois de sua estreia, aumentou em 445% os e-mails com pedidos de ajuda enviados ao Centro de Valorização da Vida (CVV)*  . Além disso, a série também chamou atenção por abordar o suicídio sem seguir protocolos recomendados pela OMS** . Porém, com uma personagem principal feminina, adolescente, que comete suicídio após uma sequência de abusos físicos e psicológicos relacionado a seu gênero - sendo o último, e mais grave, um estupro - não seria “13 Reasons Why” uma série sobre estupro e violência de gênero?

A história de Hannah tem início (tema abordado na 1ª fita) quando ela comete uma “transgressão”: sai sozinha, à noite, escondida dos pais, com um menino que ela conhece há pouco tempo de seu novo colégio. O garoto, no qual ela está interessada, tira uma foto inapropriada dela e a divulga para os colegas da escola insinuando que algo a mais teria acontecido entre os dois – quando, na verdade, deram apenas um beijo antes do fim do encontro. Esse rompimento da menina com o papel delineado e esperado de uma mulher desencadeia várias agressões à jovem, como em um espiral do qual ela não consegue se desvencilhar e que, em efeito dominó, cria as circunstâncias que ilustram as 12 fitas seguintes.

Assim, assistimos com o passar dos episódios a mudança gradual de comportamento da jovem à medida que vai sofrendo inúmeras violências verbais, psicológicas e físicas, onde seu corpo é literalmente invadido. Esses acontecimentos minam sua personalidade e geram uma dificuldade cada vez maior em reagir aos ataques subsequentes.

Hannah recebe o “golpe fatal” quando é estuprada por um dos colegas do colégio. A violência e degeneração profundas que esse episódio lhe causa é a cartada final, levando-a a crer que não há mais saída – ela não suporta mais viver a vida que vive, e acredita que não há mais como se desvencilhar de todo o sofrimento que estava sentindo. Portanto, a história de Hannah Baker é, antes de tudo, sobre violência de gênero e a sobrevivência após um estupro – o “suicídio adolescente” é outro tema, outra questão; aquilo que Hannah sofre por meses antes de cometer o ato fatal contra si mesma é o grande cerne de sua história.

A série é configurada de maneira que as trajetórias paralelas dos personagens coadjuvantes também guiem a narrativa. Fica claro que nenhum dos “alzoges” de Hannah é um vilão em si, nem há uma polarização estrita entre “bem” e “mal” – todos os adolescentes sofrem conflitos internos profundos, principalmente em relação a seus ciclos familiares. Portanto, é normal que debates sobre a adolescência e os problemas comuns nessa faixa etária, como o bullying (que também é retratado na história) surjam e sejam incentivados – principalmente no contexto escolar norte-americano, onde a série é ambientada, com taxas de violência alarmantes*** . O que assusta, porém, é o debate tímido sobre o contexto de gênero e sexualidade que guia a série, até mesmo para além da personagem principal, abordando temas como masculinidades, mulheres enquanto agentes do machismo, entre outros. Em uma rápida pesquisa pelas principais críticas, é fácil constatar que o termo “gênero” nem sequer é citado na maioria das vezes, com um ou outro caso que cita “misoginia”**** . A publicação da coluna “Justificando” da Carta Capital” é uma exceção***** .

Assim, “13 Reasons Why” é uma série complexa e que precisa ser debatida, porém por outro viés. Embora a cena de suicídio mereça reflexões, sua explicitude chocou a audiência a ponto de tirar o holofote do conteúdo nítido dos doze episódios anteriores. O fato de uma série de sucesso tratar de um tema tão profundo e delicado, e gerar tamanha identificação é mais que alarmante. Ao invés dos questionamentos sobre bullying, depressão e suicídio na adolescência, cabem indagações como as apontadas por Gabriela Cunha Ferraz na coluna “Justificando”: “Você já foi violentada? Você quer conversar com alguém sobre isso? Você já abusou de alguém? Você entende o que é consentimento e compreende seus limites? Você sabe o que é abuso sexual?”. Precisamos falar de estupro e violência de gênero, principalmente entre jovens em contexto escolar. Precisamos falar sobre a sobrevivência após um estupro.

* http://www.pragmatismopolitico.com.br/2017/04/serie-da- netflix-faz- pesquisa-por- suicidio-aumentar-445.html

**https://www.facebook.com/AndreTrigueiroJornalista/photos/a.410468329016909.98250.410456722351403/1437529692977429/?type=3&permPage=1

*** http://exame.abril.com.br/estilo-de- vida/bullying-toca- numa-ferida- aberta-em- escolas-dos- eua/

****http://cinemaemcena.cartacapital.com.br/critica/filme/8367/os-13- porqu%C3%AAs ; http://revistatrip.uol.com.br/tpm/13-reasons- why-netflix- selena-gomes- cvv-centro- de-valorizacao

***** http://justificando.cartacapital.com.br/2017/04/11/13-reasons- why-me- fez-refletir- para-questoes-alem-do- suicidio/



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