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A desculpa do "fruto de uma geração" e a hipocrisia do programa oportunista

Por Felipe Batista 

Em abril de 2017, foi divulgado o caso de assédio cometido pelo ator José Mayer contra a figurinista Su Tonani, ocorrido durante a preparação do ator para a novela “A Lei do Amor” da emissora em que ambos são funcionários, a rede Globo. Segundo Su Tonani, essa situação não ocorreu uma vez só: em outras situações o ator havia a colocado em situações constrangedoras, como cita a própria: "Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo".

Após a repercussão, o ator veio a público através de uma carta pedir desculpas e basicamente justificar seu modo de agir utilizando-se do argumento de que seu comportamento é “fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas”. Assim, o ator tentou sair pela tangente eximindo-se de sua culpa individual e, de maneira cínica, dando a entender que não age por conta própria, como se seu sentimento de empatia fosse ocultado pela sua formação antiquada. A pergunta que não quer calar é: como um ator, que tem a capacidade de assumir diversas personalidades, que não são parecidas com as suas necessariamente, não consegue se colocar no lugar do outro para perceber que está sendo desrespeitoso e agressivo?

No caso, o ator, sem dúvida, tinha uma posição de destaque na emissora, enquanto a figurinista, na hierarquia da empresa, tinha a função de auxiliar dos atores como o José Mayer. Nesse sentido, há uma situação de vulnerabilidade por parte de Su Tonani, o que provavelmente a impediu de denunciar no primeiro constrangimento causado pelo ator.

Posto isso, é perfeitamente capaz de conjecturar que casos similares já tenham ocorrido na emissora e, na mesma medida, em qualquer outro espaço de trabalho em que haja homens numa situação hierárquica superior a mulheres. A possibilidade de haver uma retaliação por parte destes que situam-se em posições de superioridade na hierarquia do trabalho é plausível. Desde o desprezo diante a denúncia até mesmo uma demissão, podem ser resultado dessa relação de dominação que pode acontecer por parte de homens que “são fruto de uma geração”, por exemplo.

O sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002), em seu livro “A Dominação Masculina” de 1998, trata exatamente dessa questão da dominação de homens em determinados espaços em que a estrutura favorece essa subjugação. Segundo o autor, através do que ele chama de “violência simbólica”, casos de assédio, por exemplo, podem ocorrer de forma respaldada pelas próprias estruturas em que os indivíduos estão inseridas, como a estrutura hierárquica das relações de trabalho. Diz o autor: “A primazia universalmente concedida aos homens se afirma na objetividade de estruturas sociais e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho de produção e de reprodução biológica e social (...)”. (BOURDIEU, Pierre, A Dominação Masculina, cap. III, p. 45).

Aproveitando a ressonância do tema da violência contra a mulher gerada pelo caso citado, o Programa Pânico na Band, resolveu surfar na onda do assunto e fazer uma matéria a esse respeito. É no mínimo curioso que esse programa dê atenção a essa questão, que dado este tem como um de seus recursos de apelo ao público o uso de mulheres com pouca roupa e, em muitas situações, colocadas em narrativas humilhantes.

No quadro “Zé Pequeno do Consumidor”, os apresentadores “Alfinete” e Daniel Zukerman comentam situações em que o ator Leandro Firmino - conhecido por representar o personagem Dadinho/Zé Pequeno no filme Cidade de Deus - exerce a função de “justiceiro social”, insultando e colocando em situação vexatória indivíduos que cometem atos imorais e, em certa medida, transgressores como jogar lixo na rua ou parar em vaga exclusiva para portadores de necessidades especiais não o sendo. O quadro, logo na sua primeira semana, foi sucesso no YouTube. Assim sendo, o programa inspirou-se no caso de assédio envolvendo José Mayer e Su Tonani para fazer um experimento social e “defender as mulheres”.

O programa contratou uma atriz, notadamente bonita, e a colocou para andar pelas ruas de São Paulo enquanto uma câmera oculta a gravava e Leandro Firmino a seguia na expectativa de que ela fosse abordada e que possíveis casos de assédio acontecessem. Conforme a atriz era abordada de maneira invasiva, Leandro Firmino se manifestava em defesa da atriz, coibindo de maneira agressiva os assediadores. No decorrer do trajeto a atriz parava em alguns locais como um bar e um ponto de ônibus onde o assédio passou da forma verbal para o contato físico. Independentemente de as situações terem sido combinadas ou não, o discurso de defesa do ator é algo problemático que deve ser analisado.

Uma frase recorrente proferida por Leandro Firmino em suas manifestações contra os homens que assediavam a atriz era “respeita a mulher dos outros”. Essa frase traz em seu bojo a ideia de que a mulher, ou melhor, o corpo da mulher, pertence ao homem. Por melhor que fosse a intenção do quadro em promover o combate ao assédio sexual contra mulheres, de maneira tácita, é introduzida a ideia de que a mulher precisa ser respeitada não por ter vontades sobre o uso de seu próprio corpo, mas por infringir o direito de um terceiro que detém a propriedade do corpo da mulher.

A ideia de propriedade de si, que advém da filosofia liberal, é algo que a segunda onda onda do movimento feminista traz à tona. Assim como o homem tem a liberdade de usar seu corpo da maneira que quiser, a mulher deve ter total controle sobre o uso de seu corpo. Contudo, o que o discurso de que se deve “respeitar a mulher dos outros” denota a expropriação daquilo que nasce com cada indivíduo: o corpo. Assim a mulher é posta numa condição em que a autonomia de si própria é tergiversada. O assédio contra um indivíduo não deve ocorrer, por ser este ser “dos outros”, mas sim por ser de si mesmo e por ter direito de decidir por si próprio.

BIBLIOGRAFIA:

BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 11ª ed, 2012.

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