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Doutora Harley e Narrrativa

Por Brenda Simoes

Harleen Quinzel, mais conhecida como Harley quinn é uma personagem das séries de quadrinhos e desenhos de Batman. Sua origem já teve diferentes versões, apresentando novas motivações para a personagem mas sempre mantendo o foco em seu relacionamento com o Coringa.

 Sua origem nos desenhos e em certos quadrinhos retrata uma médica psiquiatra com talento para ginástica e acrobacias, que passou por toda sua graduação seduzindo seus professores e depois conseguindo um emprego no “Arkham Asylum”, uma instituição psiquiátrica de renome no universo da série onde os criminosos com problemas mentais mais perigosos eram mandados a fim de se recuperar.

 Nessa origem o próprio Batman se refere a ela como “nenhum anjo” antes de aderir ao crime, sugerindo um tom de justificativa para prendê-la e até mesmo para as agressões que sofre em seu relacionamento abusivo com o Coringa. Nessa origem ela é representada como uma profissional sem real qualificação, ingênua e sugestionável.

 Outra origem, vista em quadrinhos, jogos e até por histórias feitas por fãs, é a de uma doutora com PHD no campo da psiquiatria, por vezes reclusa (como fica subentendido na série dos jogos de Arkham), que conquista sucesso acadêmico ainda jovem. Nessa linha ela é apresentada também como ambiciosa, que pega especificamente o caso do Coringa a fim de escrever um livro e se tornar famosa na academia. Ou seja nessa origem, a ambição que a faz subestimar o quão perigoso é o coringa é apresentada como a ruína da doutora Harleen Quinzel. Existe também uma origem que segue a mesma linha, só que Harley seria uma apresentadora de um programa de TV que é manipulada ao tentar conseguir uma exclusiva com o Coringa, mas acaba por fantasiar-se e passar a cometer crimes com o mesmo.

 Outra origem apresentada nos quadrinhos mais recentes, feitos pensando não mais no público infantil e jovem exclusivamente, é o que a doutora Harleen Quinzel é simplesmente sequestrada na saída de seu trabalho no Arkham pelo Coringa e jogada pelo mesmo em um tonel industrial químico com substâncias tóxicas, o que acarreta em um processo semelhante do que aconteceu com o próprio Coringa, onde as substâncias químicas afetam a aparência e também a psique da personagem, fazendo-a apaixonar-se instantaneamente pelo Coringa.

Nessa origem a personagem é criada sem nenhuma agência, ou seja, é criada pelos caprichos de um personagem masculino e totalmente sexualizada.


Na segunda origem, que ganhou destaque entre outras quando a franquia adquiriu um toma mais sério para expandir-se além do público infanto-juvenil; Harley é manipulada e enganada pelo Coringa, levando-a a vê-lo como o “herói” incompreendido, que a liberta para uma vida mais livre. A partir disso eles entram em um relacionamento onde o Coringa começa a agredi-la físicamente e emocionalmente.



Apesar de Harley estar em um relacionamento abusivo onde sobre injúrias físicas e emocionais, sua história como vítima de abuso não foi explorada até recentemente e mesmo nos quadrinhos mais recentes, onde ela está em um relacionamento novo e saudável com outros personagens, os quais mostram preocupação por sua segurança, quando Harley se prepara para confrontar a pessoa que a agrediu; foi em um contexto aonde a personagem ainda é sexualizada. Como mostrado na imagem abaixo: 


A Infantilização, por meio das roupas e da voz (especialmente notado na mudança da voz dela como doutora Harleen Quinzel para Harley Quinn, que fica bem mais aguda e descontrolada lembrando uma criança malcriada), assim como uma motivação centrada em volta de relacionamentos românticos como explorado por Katlin Schmidt em seu artigo “Siren Song: A Rhetorical Analysis of Gender and Intimate Partner Violence in Gotham City Sirens”, fizeram com que sua agência como personagem fosse realmente explorada muito depois de sua estreia no início dos anos 90. Em extras de jogos como “Arkham Knight” conseguimos espiar um pouco da mente da personagem por si só, porém sempre com a motivação baseada no coringa por trás de toda a história.

 A romantização de seu relacionamento do coringa, assim como a capitalização (visto em vendas de camisas da Hot Topic por exemplo) do mesmo diminuíram a seriedade do abuso sofrido pela personagem por anos; assim como a culpabilização da mesma por voltar a se relacionar com ele múltiplas vezes.

Só recentemente, com maior difusão de conceitos trazidos pelo movimento feminista nas redes sociais, o relacionamento tem sido exposto como abusivo e não um ideal. O modo como Harley Quinn foi e ainda é escrita demonstra que o mundo dos quadrinhos ainda têm um longo caminho no que diz respeito a exploração de suas personagens femininas, pois em até mesmo em situações que foram criadas para demonstrar um desenvolvimento da personagem, ainda existe uma sexualização pesada o suficiente para que a grande revelação da história perca parte do efeito. Como por exemplo, no quadrinho “Injustice: Gods Among Us: Year Two #13” onde Harley revela que teve uma filha com o Coringa, e que desapareceu para dar a luz a criança em segredo, durante um ano; simultaneamente discutindo a gravidez de outra personagem, a Canário Negro. Na história o assunto da gravidez é seguido por uma visita ao hospital quando Canário tem o bebê, onde Harley aparece com a seguinte roupa:

Apesar de ainda ser um momento que demonstra um desenvolvimento da personagem e uma
cena divertida entre Harley e a canário negro, a sexualização desnecessária da personagem ainda se é colocada em todos os momentos. Isso torna a leitura um tanto irritante como fã da personagem, pois parece que a forma como personagens femininas são escritas se repete em um padrão no qual elas são sempre amarradas a narrativas de personagens masculinos ou sexualizadas desnecessariamente ou até mesmo uma mistura dos dois.

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