Por Ana Caroline Peixoto
O relatório divulgado pela empresa Netflix que atua como provedora de filmes e séries via streaming informa que, no último trimestre de 2016, a companhia contava com um total de 93,8 milhões de assinantes pelo mundo. Entre diversos veículos de mídia, atualmente, a Netflix é a maior produtora de séries, de acordo com o rancking do The Hollywood Reporter.
As produções disponibilizadas na ferramenta são responsáveis por estimular debates que ultrapassam as redes sociais. A empresa cumpre seu papel de mídia, atuando como formadora de opiniões e ideais, além de possuir um grande poder de selecionar temas, definir quais são as prioridades e posições dos indivíduos.
Em abril deste ano a companhia lançou séries consideradas seus carros-chefes como a segunda temporada de The Get Down. Ambientada na década de 1970 a série que narra a história do surgimento do Hip Hop no bairro do Bronx, em Nova Iorque, é centrada em grupos sociais marginalizados e levanta questões como o grafite, movimentos sociais e a atuação da política na periferia.
Outro lançamento de temática indispensável é a série inspirada em filme homônimo, Dear White People (Cara pessoa branca, em português). Ela se utiliza de um tom tragicômico para abordar os diferentes tipos de racismo, explicito e velado, a partir da visão da personagem principal que é uma jovem estudante universitária negra que utiliza seu programa na radio da universidade para discutir o assunto. De acordo com esta análise, o silêncio ensurdecedor do público nas redes sociais após o lançamento da empresa foi a maior crítica que a serie recebeu.
Também lançada pela Netflix no mesmo mês, a série Girlboss foi criada com base na autobiografia da empresária Sophia Amoruso e faz releituras livres de eventos verdadeiros da vida de Sophia. Muito livres. A série foi criada com objetivos que, a primeira vista, soam similares aos da criação de The Get Down e Dear White People, que são séries de crítica social aprofundadas. Ela foi projetada para falar sobre o empoderamento feminino e ter uma personagem feminina que mostre, dentro do feminismo liberal, a trajetória de crescimento e independência da mulher nos Estados Unidos das últimas décadas. Porém, a série mostra graves falhas durante sua criação relacionadas ao próprio conceito do que é feminismo e do que ela deseja passar para o público que a assiste.
A série, como já dito anteriormente, é focada em Sophia Amoruso. Interpretada por Britt Robertson, Sophia é uma jovem moradora de São Francisco que aos 22 anos dirige um carro velho, enquanto mora em um apartamento com aviso de despejo e é constantemente demitida dos seus empregos. Com pouco dinheiro cometer pequenos furtos e revirar lixos para encontrar comida faz parte de sua rotina. Prestes a ser despejada e considerando voltar a morar com o pai, a jovem encontra em um brechó uma jaqueta no valor de doze dólares que ela negocia até chegar ao valor de nove dólares e um conselho de negócios para o dono do brechó. Ao fechar o acordo Sophia avisa que a jaqueta em perfeitas condições era feita de couro de bezerro original dos anos de 1970 e sugere então ao vendedor que ele conheça o valor de seus produtos.
Após isso, ela decide anunciar a jaqueta no eBay, empresa de comércio eletrônico, e obtêm na sua venda um lucro vinte vezes maior ao valor pago. Dessa forma, ela passa a enxergar no site uma grande oportunidade de negócios. Em tom de comédia a personagem é construída como uma jovem perdida que tenta encontrar um rumo para sua vida. Sua personalidade é de uma pessoa egocêntrica que tenta tirar vantagem das situações da vida a todo o momento e é capaz de passar por cima dos outros com seu ar de superioridade. A série retrata a trajetória de como Sophia se torna um dos nomes mais conhecidos do mundo da moda fundando a famosa marca Nasty Gal e sua loja virtual que tem seu início com a venda de roupas vintages no eBay.
Ao contrário do que é esperado quando nos deparamos com o título, a série não constrói uma trama que mostre um verdadeiro empoderamento feminino. O que mais decepciona não são o enredo fraco e acontecimentos clichês, que tornam a série leve de se "maratonar", mas sim a dificuldade de identificação com a personagem principal e os erros ao introduzir o conceito de feminismo na série. Em uma cena do terceiro episódio da temporada, Sophia e Shane, seu futuro par romântico, andam por pontos específicos da cidade em busca de inspiração. De repente, uma mulher vestida com estilo punk-rock, cabelo desgrenhado e maquiagem forte aponta para Shane e diz que "ele é o problema, que é outro homem ignorante andando como se fosse o dono do lugar".
Durante a cena a mulher é inserida de forma clichê, com visual rebelde e desarrumada, e é descrita como uma louca que não só aborda dois desconhecidos na rua, como também reproduz um discurso contra o patriarcado de forma agressiva. A cena termina com Sophia enfiando um burrito na boca da desconhecida que passa de agressiva a acanhada e grata pelo alimento. No minuto seguinte, Sophia pergunta a Shane o que o fez mudar para São Francisco, já que ele não enxerga a beleza e magia que a cidade possui. Shane diz que seguiu uma garota até a cidade, que agora é sua ex-namorada. Sophia pergunta o que acontecera entre os dois e então Shane diz que seu antigo amor mudara de comportamento após frequentar aulas de Estudos Femininos. A cena sugere implicitamente que o contato com o feminismo mudara a antiga namorada do personagem para pior e é aí que Girlboss passa então, a ser não apenas uma série que promove uma personagem principal com uma construção de personalidade precária e simplista que a torna de difícil diálogo com o público, mas também uma produção que promove um desserviço para o feminismo. Ela tem problemas com porque afasta o público familiarizado com o feminismo e seus discursos e também prega uma mensagem errada sobre ele, passando uma mensagem errada para o publico que não tem contato com as teorias feministas.
Outra questão da série é o empoderamento feminino empresarial. Na série, outros membros vendedores do eBay que estavam descontentes com atitudes desrespeitosas que visavam o lucro excessivo de Sophia conspiram para que ela seja expulsa do site. Após a expulsão por descumprir os termos de usuário da plataforma., a personagem decide lançar o próprio site da marca e a produção do Netflix retrata apenas sua história até o lançamento da Nasty Gal. Essa visão da uma sensação de vitória para a vida da personagem, porém sabe-se que na vida real, a empreendedora Sophia Amoruso declarou falência em 2016. Como a Netflix ainda não confirmou a renovação da série, não se sabe se haverão episódios que contem a declaração de falência da marca em 2016 e nem uma reflexão sobre essa primeira visão sobre o empoderamento feminino no mundo empresarial que é mostrado como sólido e seguro, porém que na vida real mostrou-se inseguro e arriscado.
As falhas com o feminismo não estão apenas na série. Ex-funcionários da marca Nasty Gal descrevem a fundadora Sophia Amoruso como uma pessoa mesquinha e vingativa e a mesma é ré em vários processos legais que alegam que ela foi responsável por discriminação e demissões injustas* . Além disso, em 2015, a mesma ainda recebeu três processos de funcionárias que alegaram terem sido demitidas antes ou durante a licença maternidade** .
Com participação ativa da empresária na produção, a Netflix criou uma história de empreendedorismo feminino que poderia servir de inspiração para jovens mulheres que chegam aos vinte e poucos em meio à crise existencial. Porém, vide os problemas argumentados aqui, torna-se claro que a empresa de streaming e Sophia usaram-se do discurso de empoderamento feminino apenas como forma de criar um produto que visa o lucro e não uma crítica social e de gênero sólida. Sendo assim, GirlBoss, com pouco apelo de público e de crítica, não poderia deixar de ser um retrato de suas falhas de criação e de objeto inspirador, no caso Sophia Amoruso.
*Guerra, Ana Rita. Nasty Gal em falência: a queda da it girl das startups em LA. Disponível em: www.dinheirovivo.pt/empresas/nasty-gal- em-falencia- a-queda- da-it- girl-das- startups-em- los-angeles/. Acesso em 28 de maio de 2017.
**Shafrir, Doore. Hipocrisia feminista é a nova tendência nas narrativas start-up. Disponível em: https://www.buzzfeed.com/doree/hiprocrisia-start- up-feminismo?utm_term=.alNV3qVXrW#.vl4VXnVGrQ . Acesso em 28 de maio de 2017.
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