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As falsas denúncias da ficção e a descredibilidade real das mulheres na sociedade machista – Globo e a violência de gênero

Por Aurea Thatyanne Ferreira

Nos últimos meses a Rede Globo esteve no centro de alguns debates sobre violência de gênero. A razão disso foram os dois casos que ocorreram na emissora num curto período de tempo: primeiro, o relacionamento abusivo e a consequente agressão entre o casal Marcos e Emilly no programa Big Brother Brasil, e logo depois o caso de abuso do ator José Mayer contra a figurinista Su Tonani, que veio à tona com a denúncia da mesma. Ambos provocaram muitas reações tanto dos espectadores da empresa, quanto do público da internet em geral, como trata um dos textos aqui do blog.

Porém, parece que essas situações infelizes não geraram na emissora a mesma indignação que geraram ao público. Em maio, poucas semanas após os dois escândalos citados, a emissora exibiu em duas novelas de sua programação casos fictícios de mulheres fazendo falsas denúncias de agressão contra seus ex, com objetivo de prejudicá-los. O primeiro caso foi na novela das 19h recém-terminada, “Rock Story", e o segundo foi na atual novela das 21h, “A Força do Querer”. Em ambas, as personagens utilizavam a falsa denúncia como forma de prejudicar os ex em relação às desavenças que possuíam com eles.

Em uma nação com altas taxas de violência de gênero, sendo o 5º país que mais mata mulheres no mundo  é uma completa irresponsabilidade e um total desserviço que a emissora com a maior audiência da TV aberta veicule esse tipo de conteúdo em sua programação de entretenimento, não só uma, mas duas vezes em sequência. Não porque mulheres não possam fazer denúncias falsas, mas porque esses casos são infinitamente menores em comparação às denúncias verdadeiras. Como explica H. Safiotti, as relações de gênero estão imbricadas em relações de poder, o que hierarquiza homens e mulheres ao longo da história e contextualiza a existência da violência de gênero de maneira estrutural. A descrença na veracidade das denúncias das mulheres é real, e configura-se como um dos grandes motivos que retardam ou impossibilitam que a vítima denuncie a violência que sofreu (e que, na maioria dos casos, é cometida por alguém conhecido dela, sendo muitas vezes o parceiro/namorado/marido).

Ademais, veicular esse conteúdo poucas semanas após os casos de violência ocorridos dentro da emissora, um aos olhos “públicos” das câmeras e outro nos bastidores, é de um mau caráter imenso. E custa acreditar que a reincidência tenha sido erro ocasional – afinal, a maior emissora do país não teria verba e pessoal suficiente para promover a melhor infraestrutura e planejamento disponíveis em televisão no Brasil?

O caso, é claro, não passou despercebido aos olhos do público, que pouco a pouco demonstra não aceitar mais determinadas dinâmicas na teledramaturgia sem que sejam geradas, pelo menos, algumas ondas de críticas e debates na internet. A novela Rock Story tentou “consertar” a situação, fazendo com que a personagem que fez a falsa acusação fosse desmascarada e logo saísse da história, e outra personagem que a havia incentivado na falsa denúncia fez um discurso arrependida:

“Tá prejudicando muito mais gente. Agora, qualquer mulher que sofra uma violência vai ser comparada à Mariane, vai ser tratada como se fosse uma mentirosa“. 

A fala da personagem Diana resumiu a problemática que esse tipo de abordagem pode gerar, mas com certeza não teve tanto impacto quanto as cenas da falsa denúncia em si, que endossaram a pouca credibilidade que as mulheres na sociedade patriarcal têm quando delatam as violências que sofreram. Na outra trama, a personagem teve a mentira revelada, mas continua sendo construída enquanto uma mulher, antes bem-sucedida, que agora abandona projetos pessoais para viver uma obsessão de vingança pela traição do ex.

A novela das 19h já acabou, a das 21h continua seu desenvolvimento sem demonstrar maiores preocupações com o episódio, que já tem mais de um mês; esses casos ficarão para trás, à medida que novos eventualmente surjam. Mas nos faz refletir sobre a dimensão do impacto negativo e regressor que essas histórias tenham causado aos debates e à luta contra a violência de gênero. Além disso, deixa explícita a incoerência da emissora, que enquanto investe em programas que debatem questões de gênero e sexualidade de forma ampla e “sem tabus”, como tratamos aqui , e na reformulação de velhas atrações, incorporando a elas a centralidade do empoderamento feminino em diversos recortes, como é o caso do novo formato de “Malhação”, ainda exibe conteúdo conservador e misógino em suas novelas.

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