Por Glícia Peclat
Na última seção do livro Fahrenheit 451, Ray Bradbury escreve sobre as reações de alguns segmentos sociais aos retratos de personagens que ele fazia ou até mesmo ignorava.
"Cerca de dois anos atrás, recebi uma carta de uma digna dama da universidade de Vassar dizendo-me quanto ela gostara de ler meu experimento em mitologia espacial, As Crônicas Marcianas. Mas, acrescentava ela, não seria uma boa ideia, passado tanto tempo, reescrever o livro introduzindo mais personagens e papéis femininos? Alguns anos antes disso, recebi certa quantidade de cartas relativas ao mesmo livro, reclamando que os negros no livro eram do tipo pai Tomás, e perguntando por que eu 'não os criava de novo'?"
Em seguida, vemos o autor desfiar algumas reclamações quanto ao que o "politicamente correto" estaria se tornando:
"O sentido é óbvio. Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos".
Pois bem, em um livro que aborda a censura literária em um mundo distópico, não se esperaria menos do que um autor indignado por sentir-se cerceado em sua escrita. O grande "porém" aqui não é a necessidade de Bradbury em reescrever seus antigos livros, mas ver a demanda dessas pessoas como censura.
Um dos grandes dilemas estéticos é justamente o seu limite. É possível considerar arte algo que transgride negativamente? Transgredir não é sempre negativo para alguém? A arte deveria ser "livre"? Se sim, podemos colocar 120 Dias de Sodoma, os filmes de Goebbels e ganhadores de Oscars na mesma caixa de arte, por exemplo?
Antes de mais nada, é preciso relembrar que essas questões não foram respondidas definitivamente, talvez nem sejam. E por mais infeliz que tenha sido em censurar as respostas dessas pessoas às suas obras, o Coda de Bradbury é uma oportunidade de discutir o território literário, e artístico em geral, em disputa.
Bakhtin, em Marxismo e Filosofia da Linguagem, fala sobre a diferença entre objetos e signos
A dualidade entre signo e objeto é permeada pelo simbólico e pelo material. Pelo exemplo do autor, a foice e o martelo, os objetos em si, não contém um significado além da função que exercem. Porém, em um contexto histórico de Socialismo, a foice e o martelo são imbuídos de significado, além da sua função, tornando-se um signo. O signo é tão parte da realidade quanto um objeto, e não só isso: ele altera a compreensão de um contexto. Por isso, Bakhtin usa a expressão "refratar", além de "refletir" para os efeitos do signo no contexto social.
Transferindo essa abordagem para a situação descrita no Coda, vemos o significado que haver ou não haver personagens mulheres, ou ainda, descrever personagens negros de maneira estereotipada, tem em um contexto histórico de disputas políticas em torno do espaço que é conferido a essas pessoas, inclusive no meio artístico. A existência dessas personagens é um signo, já que não se pode destacar um livro, um personagem, uma palavra do contexto social e histórico no qual ela se materializa.
"Um signo é um fenômeno do mundo exterior. O próprio signo e todos os seus efeitos (todas as ações, reações e novos signos que ele gera no meio social circundante) aparecem na experiência exterior." (BAKHTIN, 2006, p. 31)
Assim como é um fragmento da vida exterior -exterior da consciência e da significação individual-, o signo é um fenômeno dela. Eles aparecem no contexto social e geram novos signos, a partir deles mesmos. Essas novas criações emergem da interação entre as consciências individuais, a partir da aproximação de um signo ao outro, promovendo a compreensão de um pelo outro. A partir das interações, as consciências unem-se (comunicam-se e/ou identificam-se) através do conteúdo ideológico. Aliás, segundo Bakhtin, a consciência emerge do conteúdo semiótico, dessa coleção de signos.
Então, mesmo que o autor tenha completo poder sobre a produção de sua obra, ela ainda terá um público e causará um impacto nele. Constituirá estereótipos, caso seja a única maneira retratada de uma personagem, por exemplo. Além disso, a necessidade desses signos, da existência e consumo deles, reverberará no meio artístico, seja por críticas ou pelo surgimento de novos autores e novos meios de produção artística que atendam a essa demanda.
Por fim, talvez não seja possível reescrever todos os livros, nem é bom censurá-los. Toda arte está subordinada ao que é considerado moral pela sociedade, e quando há esse conflito, é interessante perceber o que ainda permanece para ser discutido e o que ainda não é definitivo para uma sociedade. Até mesmo para fins de esclarecimento, seja para sociólogos, novos leitores ou amantes da literatura, esses conflitos são os indicadores de que estruturas estão se cristalizando e quais outras já ruíram, na Literatura e na Sociedade. A saída pode ser testar esse novo modo de escrever, e essas novas personagens que nascerão de uma perspectiva mais abrangente dos protagonistas das histórias, tanto quanto abrir espaço para que outros dispostos sejam incluídos no rol do que é considerado arte.
REFERÊNCIAS:
BAKHTIN, Mikhail; Marxismo e Filosofia da Linguagem; São Paulo: Editora HUCITEC, 2006. BRADBURY, Ray; Fahrenheit 451; São Paulo: Editora Globo, 2012.
MENEGHETI, Mickael; Literatura e o discurso politicamente correto. Disponível em: <http://homoliteratus.com/literatura-e- o-discurso- politicamente-correto/>
Na última seção do livro Fahrenheit 451, Ray Bradbury escreve sobre as reações de alguns segmentos sociais aos retratos de personagens que ele fazia ou até mesmo ignorava.
"Cerca de dois anos atrás, recebi uma carta de uma digna dama da universidade de Vassar dizendo-me quanto ela gostara de ler meu experimento em mitologia espacial, As Crônicas Marcianas. Mas, acrescentava ela, não seria uma boa ideia, passado tanto tempo, reescrever o livro introduzindo mais personagens e papéis femininos? Alguns anos antes disso, recebi certa quantidade de cartas relativas ao mesmo livro, reclamando que os negros no livro eram do tipo pai Tomás, e perguntando por que eu 'não os criava de novo'?"
Em seguida, vemos o autor desfiar algumas reclamações quanto ao que o "politicamente correto" estaria se tornando:
"O sentido é óbvio. Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos".
Pois bem, em um livro que aborda a censura literária em um mundo distópico, não se esperaria menos do que um autor indignado por sentir-se cerceado em sua escrita. O grande "porém" aqui não é a necessidade de Bradbury em reescrever seus antigos livros, mas ver a demanda dessas pessoas como censura.
Um dos grandes dilemas estéticos é justamente o seu limite. É possível considerar arte algo que transgride negativamente? Transgredir não é sempre negativo para alguém? A arte deveria ser "livre"? Se sim, podemos colocar 120 Dias de Sodoma, os filmes de Goebbels e ganhadores de Oscars na mesma caixa de arte, por exemplo?
Antes de mais nada, é preciso relembrar que essas questões não foram respondidas definitivamente, talvez nem sejam. E por mais infeliz que tenha sido em censurar as respostas dessas pessoas às suas obras, o Coda de Bradbury é uma oportunidade de discutir o território literário, e artístico em geral, em disputa.
Bakhtin, em Marxismo e Filosofia da Linguagem, fala sobre a diferença entre objetos e signos
A dualidade entre signo e objeto é permeada pelo simbólico e pelo material. Pelo exemplo do autor, a foice e o martelo, os objetos em si, não contém um significado além da função que exercem. Porém, em um contexto histórico de Socialismo, a foice e o martelo são imbuídos de significado, além da sua função, tornando-se um signo. O signo é tão parte da realidade quanto um objeto, e não só isso: ele altera a compreensão de um contexto. Por isso, Bakhtin usa a expressão "refratar", além de "refletir" para os efeitos do signo no contexto social.
Transferindo essa abordagem para a situação descrita no Coda, vemos o significado que haver ou não haver personagens mulheres, ou ainda, descrever personagens negros de maneira estereotipada, tem em um contexto histórico de disputas políticas em torno do espaço que é conferido a essas pessoas, inclusive no meio artístico. A existência dessas personagens é um signo, já que não se pode destacar um livro, um personagem, uma palavra do contexto social e histórico no qual ela se materializa.
"Um signo é um fenômeno do mundo exterior. O próprio signo e todos os seus efeitos (todas as ações, reações e novos signos que ele gera no meio social circundante) aparecem na experiência exterior." (BAKHTIN, 2006, p. 31)
Assim como é um fragmento da vida exterior -exterior da consciência e da significação individual-, o signo é um fenômeno dela. Eles aparecem no contexto social e geram novos signos, a partir deles mesmos. Essas novas criações emergem da interação entre as consciências individuais, a partir da aproximação de um signo ao outro, promovendo a compreensão de um pelo outro. A partir das interações, as consciências unem-se (comunicam-se e/ou identificam-se) através do conteúdo ideológico. Aliás, segundo Bakhtin, a consciência emerge do conteúdo semiótico, dessa coleção de signos.
Então, mesmo que o autor tenha completo poder sobre a produção de sua obra, ela ainda terá um público e causará um impacto nele. Constituirá estereótipos, caso seja a única maneira retratada de uma personagem, por exemplo. Além disso, a necessidade desses signos, da existência e consumo deles, reverberará no meio artístico, seja por críticas ou pelo surgimento de novos autores e novos meios de produção artística que atendam a essa demanda.
Por fim, talvez não seja possível reescrever todos os livros, nem é bom censurá-los. Toda arte está subordinada ao que é considerado moral pela sociedade, e quando há esse conflito, é interessante perceber o que ainda permanece para ser discutido e o que ainda não é definitivo para uma sociedade. Até mesmo para fins de esclarecimento, seja para sociólogos, novos leitores ou amantes da literatura, esses conflitos são os indicadores de que estruturas estão se cristalizando e quais outras já ruíram, na Literatura e na Sociedade. A saída pode ser testar esse novo modo de escrever, e essas novas personagens que nascerão de uma perspectiva mais abrangente dos protagonistas das histórias, tanto quanto abrir espaço para que outros dispostos sejam incluídos no rol do que é considerado arte.
REFERÊNCIAS:
BAKHTIN, Mikhail; Marxismo e Filosofia da Linguagem; São Paulo: Editora HUCITEC, 2006. BRADBURY, Ray; Fahrenheit 451; São Paulo: Editora Globo, 2012.
MENEGHETI, Mickael; Literatura e o discurso politicamente correto. Disponível em: <http://homoliteratus.com/literatura-e- o-discurso- politicamente-correto/>
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