Por Gabriel Mendes
Na série recente do Fantástico, na TV Globo, intitulada "Quem Sou Eu?" foram mostradas histórias de diversas pessoas transexuais a fim de tentar esclarecer essa questão para o público que muitas das vezes não a compreende muito bem.
A série foi estruturada em quatro episódios: o primeiro tratava mais do período da infância de pessoas trans, o segundo adolescência e o início da tomada de hormônios, o terceiro focava na cirurgia de mudança de sexo e o quarto tratava de relacionamentos amorosos. A narrativa dos episódios se construiu com relatos de pessoas transexuais e suas famílias, além de médicos.
Tudo isso ao mesmo tempo em que os jornalistas faziam uma metáfora entre as experiências de uma pessoa trans e a história da Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. A série foi informativa, mas muito mais do que discutir o que foi mostrado na série, é importante perceber o que não foi discutido na mesma, o que não foi dito. Em alguns episódios é citado que a operação de mudança de sexo já é disponível pelo SUS desde 2008 e em alguns momentos quando esse tema aparece é explicado que para que a cirurgia ocorra é necessário acompanhamento médico. Ponto, acaba ai. Para uma pessoa que não entende sobre transexualidade e conseguiu ficar acordada até quase o final do Fantástico (o que significa tarde da noite) isso parece ótimo, o suficiente. O que a Globo não mostrou foi toda a discussão que o movimento trans faz sobre a despatologização de suas vidas.
A transexualidade é chamada de "transexualismo" pela Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) da OMS. O sufixo "ismo" da palavra denota a ideia de doença, e na última edição do CID, a transexualidade está junto a "transtornos mentais e comportamentais". Seria a transexualidade realmente isso? Um "transtorno mental"? Segundo a Globo poderíamos dizer que sim. Desde o primeiro episódio da série foi chamado um psiquiatra, ou seja, um médico, para explicar a formação do cérebro de um indivíduo trans. A ideia de doença aqui só é reforçada. Não é feita uma discussão sobre a cisheteronormatividade que permeia a nossa sociedade e que faz com que na opinião das pessoas a ideia de um indivíduo transexual seja impensável. O autor André Lucas Guerreiro Oliveira traz a ideia de que é a partir dessa heteronormatividade que as vidas desses indivíduos passam a ser menores e não legítimas e por isso cabe à medicina patologizar essa experiência a fim de que dessa forma ela entre nos moldes na heteronormatividade. Se é uma doença ela pode ser tratada, e se pode ser tratada não há problema, ela continua dentro dos moldes sociais.
Pode-se argumentar que para uma série de quatro episódios não havia tempo para que esse assunto fosse discutido, mas é curioso que além disso, nada mais profundo também foi falado sobre o processo de acompanhamento médico necessário para que a cirurgia de mudança de sexo aconteça pelo SUS. Na série esse processo é citado e para uma pessoa que está entrando em contato com a questão trans pela primeira vez ele pode parecer muito simples, mas existem algumas coisas que a Globo não disse que precisam ser melhor discutidas. É necessário que para a cirurgia ocorra o indivíduo passe por pelo menos dois anos de acompanhamento psicológico compulsório. Se a pessoa almeja passar pela cirurgia ela precisa passar por esse acompanhamento, sua escolha é passar pelo tratamento e talvez conseguir a cirurgia ou não passar pelo acompanhamento e com certeza não conseguir a cirurgia, ou seja, não há escolha. O acompanhamento visa atestar que essa pessoa que sofre todos os dias transfobia e precisa diariamente reafirmar sua identidade para uma sociedade que não a recebe bem é realmente uma pessoa transexual. Ou seja, que ela possui "transtorno de gênero" (segundo a visão médica). É necessário, portanto, um acompanhamento que vai testar um indivíduo trans que almeja por sua cirurgia, um "tratamento" que vai dizer para essa pessoa quem ela é a partir de uma série de testes e durante o período de no mínimo dois anos.
Também é necessário dizer que os gêneros masculinos e femininos são entendidos a partir de uma série de características sociais que variam de acordo com classe social, lugar etc, e que os profissionais que vão acompanhar essas pessoas podem ter diferentes noções do que é masculino e feminino e podem a partir disso considerar em seu diagnóstico que a pessoa ali em questão na verdade não é trans. Ou seja, é possível que a partir das crenças e convicções desses profissionais da saúde que uma pessoa trans passando pelo acompanhamento seja diagnosticada como não trans.
Todo esse processo é vagaroso e parece absurdo. Um teste para dizer a uma pessoa quem ela realmente é, quando na verdade a pessoa já tem essa resposta. É no mínimo curioso que a Globo não tenha falado disso em sua série. Falta de tempo? Seria essa uma justificativa plausível? Outras perguntas também podem ser feitas: por que no episódio sobre relações amorosas não havia nenhum casal com alguma pessoa trans homossexual? Por que a narrativa da série foi construída a partir de uma metáfora com a Alice no País das Maravilhas? Afinal na história da Alice ela acorda de seu sonho, o que estaria a Globo tentando passar com essa metáfora? A série realmente esclarece algumas questões, mas ao mesmo tempo em que deixa de falar de outras também muito importantes.
REFERÊNCIAS
OLIVEIRA, André Lucas Guerreiro. Os homens transexuais brasileiros e o discurso pela (des) patologização das identidades (trans). In: JESUS, Jaqueline Gomes de Jesus & Colaboradores. TransFeminismo Teorias & Práticas. Editora Metanoia.
Texto impecável, pontuando fatos que não podiam passar despercebidos. Parabéns!
ResponderExcluirÉ sempre importante perceber o interdito nos discursos, sobretudo quando se trata de um tema tão sensível e da grande mídia.
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